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  • RELAÇÃO FIEL E VERDADEIRA • MARGARIDA GIL
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RELAÇÃO FIEL E VERDADEIRA • MARGARIDA GIL

13,00 €  
IVA incluído

RELAÇÃO FIEL E VERDADEIRA • Margarida Gil 1987 Portugal 89 min • 2021 Academia Portuguesa de Cinema & Cinemateca Portuguesa • Argumento de João César Monteiro & Margarida Gil em co-produção com a RTP • Direcção de Fotografia de Manuel Costa e Silva • Direcção de Produção de Henrique Espírito Santo • Montagem de Leonor Guterres • Direcção de de Som de Joaquim Pinto & Vasco Pimentel • Edição em DVD do primeiro filme da realizadora Margarida Gil, com argumento baseado na “autobiografia” de Antónia Margarida Castelo Branco. A história recua ao século XVII e à aristocracia rural do norte do país para contar a atormentada relação entre Antónia (Catarina Alves Costa) e o arruinado Brás Telles de Meneses, seu marido, que a levará a procurar refúgio num convento • Legendas Português & Inglês • Número 09 da Colecção Academia Portuguesa de Cinema & Cinemateca • Lançamento às 18.00 do DVD e projecção às 19.00 da nova cópia DCP no dia 21 de Maio de 2021, com a presença do realizadora, do Presidente da Academia Portuguesa de Cinema, Paulo Trancoso & José Manuel Costa, Director da CP-MC • Sessão Com A Linha de Sombra Maio de 2021 • www.linhadesombra.com • PVP 13€ • Linha de Sombra • Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema ■

Primeira longa-metragem de ficção de Margarida Gil, Relação Fiel e Verdadeira ostenta todas as feridas (nomeadamente, a ferida do esquecimento injusto) de uma boa porção do cinema português dos anos 1980. Entre elas, uma impressão de fragilidade, de fragilidade artesanal, ao nível da produção, que está a milhas da “correcção técnica” ou da exibição de meios: nem som nem imagem são aqui limpos

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Nada paradoxalmente, porque isso acontece com muitos filmes (não apenas portugueses, mas, nesta época, muitos filmes portugueses), é por aí, por todos esses solavancos na relação do filme com o real em que se integra e que constrói, que ele adquire uma aura fantasmática, que já à época era, e hoje mais ainda (não descuremos nunca a importância da “patine” no cinema), um dos seus factores distintivos – e demos um exemplo concreto: sem as características muito próprias dos 16mm, seriam tão impressionantes aqueles planos de Antónia a deambular pelos corrredores arruinados, em imagens que têm ao mesmo tempo a materialidade e a evanescência, quase sobrenatural, de algum cinema do território do dito “cinema experimental” ou de “avant- garde”? Toda a gente conhece o dito de Rivette sobre um filme ser tão melhor quanto mais for uma “reportagem sobre a sua rodagem”. Sobre a rodagem não podemos falar, mas o filme de Margarida Gil tem uma profunda honestidade na relação com os seus meios e as suas condições: não engana, não se faz passar pelo que não é (nem pelo que não tem), e integra tudo isso na sua natureza. Dá do seu “real”, ou da sua “realidade”, uma “relação fiel e verdadeira”. Não se pode dizer isto de todos os filmes.

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A história é “de época”, aliás, mas o filme não: retrata uma época “mista”, onde certas coisas vêm do fundo dos tempos do século XVII mas outras coisas vêm do final do século XX – o jogo de poker (com participantes especialíssimos) ou os automóveis e autocarros, eis dois exemplos gritantes dessas fissuras abertas na relação do filme com a História. Que são também dois exemplos do tipo de modernidade que Margarida Gil percebia, e apesar de sabermos da proximidade da realizadora com o cinema de João César Monteiro (aqui presente, no argumento ou na tal cena do jogo de poker), Relação Fiel e Verdadeira parece inscrever-se muito mais na órbita de Manoel de Oliveira – impressão reforçada pela escolha, para protagonista masculino, de António Sequeira Lopes, que dez anos antes fora o Simão do Amor de Perdição. Desde o fenomenal plano da sua entrada em cena, vindo da sombra e trajado de negro, o Brás de Sequeira Lopes é olhado pela câmara de Margarida com o mesmo espanto, o mesmo temor e a mesma afeição do olhar da protagonista femina (a Antónia que a futura cineasta Catarina Alves Costa compõe num balanço perfeito entre a alvura angelical da sua superfície e um brilho mais escuro e, quiçá, mais perverso, emanado do seu interior (ou da sua “alma”, para usarmos terminologia oliveiriana). E, até à morte, o filme é sobre isto, a “relação” de uma “relação”, o diagnóstico e acompanhamento de um amor malsão, o Mal transfigurado (mesmo que não “transmutado”) pelo olhar amoroso.

É um dos mais belos primeiros filmes do cinema português de 80.


Luís Miguel Oliveira

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